Nascido
da família simples do marceneiro e clarinetista da banda da Guarda
Nacional, Eduardo Alexandre dos Prazeres, e da costureira Celestina Gonçalves
Martins, moradores da Rua Presidente Barroso, no bairro da Cidade Nova
(Praça Onze), Heitor dos Prazeres nasceu no dia 23 de setembro
de 1898, uma década após a abolição da escravatura.
Sua chegada trouxe muita alegria a seu pai, esperançoso de que
o filho desse continuidade ao nome Prazeres, pois na ocasião o
casal tinha duas filhas: Acirema e Iraci, que ajudavam a mãe nos
serviços caseiros e nas encomendas de costuras.
E Lino, como era chamado carinhosamente por suas irmãs, foi crescendo
e aprendendo os primeiros passos e as primeiras palavras no convívio
daquela família, onde todos procuravam manter a união no
trabalho para que pudessem conservar aquele nível social e não
acontecesse como em outras famílias negras que, marginalizadas
por perseguições raciais e sociais, não arranjavam
empregos, moradias e escolas e passavam a se agrupar em morros perto dos
grandes centros, criando assim as favelas.
E Heitor foi crescendo, e com ele as favelas. Ao completar sete anos de
idade foi surpreendido com a morte de seu admirável pai, que naquela
época já começava a lhe ensinar os primeiros passos
na profissão de marceneiro e alegrava as longas tardes e noites
daquela casa, solando, em seu clarinete, dobrados, polcas, valsas e choros,
provocando, assim, o ouvido musical de seu filho Lino.
As ferramentas no armário do quintal, o clarinete em cima da cristaleira
e o piano trancado em um canto da sala traziam para o menino Heitor fortes
lembranças de seu pai, cuja morte ele questionava. Dona Celestina,
mulher forte e dinâmica, respondia ao menino contando a história
de seus antepassados, escravos vindos da África, numa jornada sofrida
e desumana. E comparava a situação de sua família,
até certo ponto privilegiada, graças à dedicação
e ao trabalho do pai Alexandre, em comparação a outros irmãos
negros. E justificava a morte do pai Eduardo Alexandre dos Prazeres, atribuindo
à vontade de Deus, consolando assim as suas crianças.
Com a ajuda de suas filhas, de parentes e amigos, entre eles o tio Hilário
Jovino (Lalu de Ouro) – que, entusiasmado com a vocação
musical de Lino, deu-lhe o primeiro cavaquinho –, Dona Celestina
consegue matricular o menino numa escola profissionalizante, onde cursava
o primário e aprendia a profissão de marceneiro. Heitor
desenvolve-se tendo como modelo o tio, cujo modo de compor ele admirava,
sendo mais tarde influenciado por ele em suas primeiras composições,
despertando o interesse do pianista Sinhô por aquele estilo de composição.
Heitor engraxate, Prazeres jornaleiro e Lino ajudante de marceneiro e
lustrador de móveis, todos esses personagens dentro de um corpo
negro, franzino e arisco, com gingado de capoeira, na fase dos seus 12
anos, deram força ao mano Heitor do Cavaquinho, que na época
já participava das reuniões nas casas das tias, onde se
cultuavam ritmos afros como candomblé, jongo, lundu, cateretê,
samba etc., destacando-se como um grande ogã-ilu e ogã-alabé,
improvisando versos, ritmando nos instrumentos de percussão e harmonizando
em seu cavaquinho, presenteado por tio Lalu, instrumento este que se tornou
o amigo inseparável do menino Heitor dos Prazeres. A essas reuniões
geralmente Lino era levado por seus familiares, especialmente por seu
tio Hilário, que sempre o incentivava no instrumento, fazendo com
que Heitor o acompanhasse em seus improvisos. Esses encontros eram feitos
nos fins de semanas em casas de parentes e amigos, como na casa da própria
vovó Celi, tia Esther, de Oswaldo Cruz, tia Ciata (Maria Hilária
Batista de Almeida), onde aconteciam reuniões das mais famosas
da época e onde se encontravam vários bambas, como Lalu
de Ouro, José Luiz de Moraes (Caninha), João Machado Guedes
(João da Baiana), José Barbosa da Silva (Sinhô), Getúlio
Marinho (Amor), Ernesto Joaquim Maria dos Santos (Donga), Saturnino Gonçalves
(Satur), Alfredo da Rocha Viana (Pixinguinha), Paulo Benjamim de Oliveira
e muitos outros sambistas daquela época.
A partir daí Heitor caiu no mundo: cavaquinho em punho, caixa de
engraxate e a bolsa ao lado de carregar os jornais, saiu ele na conquista
de sua cidade e de sua formação nesta grande escola da vida,
dedilhando seu instrumento, deixando-se levar pela magia daquele som,
descobrindo acordes, tentando conhecê-los mais intimamente.
Nas redondezas de seu bairro, preferia os pontos onde existia música,
como as cervejarias da Praça Onze, com suas sessões de cinema
mudo, animadas por pianistas ou pequenos conjuntos musicais que fascinavam
o garoto Lino, ali assistindo do lado de fora, atento aos movimentos dos
músicos que tiravam sons de seus instrumentos a cada movimento
das cenas filmadas. Ele gostava também dos cafés nos arredores
da Lapa, onde ia ouvir as orquestrinhas de valsas e choros que animavam
as noites da bela época do Rio de Janeiro. Ao fim de cada apresentação,
o maestro passava seu elegante chapéu de palha entre os freqüentadores,
arrecadando dinheiro para os instrumentistas, que geralmente no fim das
noitadas arranjavam propostas para serenatas dedicadas às pretendidas
dos mais românticos freqüentadores daqueles requintados cafés.
Nos Prazeres das noites cariocas ele foi crescendo. E nos carnavais, já
rapazinho e se destacando entre os bambas, Heitor costumava sair fantasiado
de baiana, levando nos ombros um pano da costa em cores vivas, cantando
e tocando seu cavaquinho, arrastando foliões que dançavam
animadamente segurando as extremidades do pano como uma bandeira, fato
esse que inspirou Heitor dos Prazeres a criar um estandarte para outros
carnavais.
Na década de 20, passou a ser conhecido como Mano Heitor do Estácio,
devido ao fato de andar sempre acompanhado de bambas de sua amizade como
os sambistas e compositores João da Baiana, Caninha, Ismael Silva,
Alcebíades Barcelos (Bide), Marçal, ajudando a fundar e
a organizar vários agrupamentos de samba no Rio Comprido, no Estácio
e nas imediações. Chegando até a Mangueira e Oswaldo
Cruz, onde havia reuniões a que compareciam Cartola, Paulo de Oliveira
(conhecido mais tarde como Paulo da Portela), João da Gente, Mané
Bambambam e muitos outros, participando assim da criação
das primeiras escolas de samba: Deixa Falar, De Mim Ninguém se
Lembra e Vizinha Faladeira, no Estácio; Prazer da Moreninha e Sai
como Pode, em Madureira, que se transformaram na sua querida Portela,
à qual ele deu as cores azul e branco. Heitor participou também
dos primeiros passos da Estação Primeira de Mangueira, aonde
ia contratar as pastoras para apresentações em festas e
cassinos com seu amigo e parceiro Cartola.
Sua popularidade crescia; Heitor vivia e amava muito. Em 1925 compôs
Deixaste meu lar e Estás farto de minha vida, gravada por Francisco
Alves.
Uma de suas paixões o censurava muito por sua vida boêmia,
e por causa disso ele se inspirou e fez Deixe a malandragem se és
capaz. Em 1927 começou sua famosa polêmica com Sinhô
(a primeira polêmica na música popular brasileira). Apresentando-se
em uma das mais populares festas do Rio de Janeiro, a de Nossa Senhora
da Penha, onde eram lançadas as músicas que o povo cantaria
durante o carnaval, foi surpreendido quando ouviu a música Cassino
maxixe, gravada por Francisco Alves, sendo a autoria atribuída
exclusivamente a Sinhô. Heitor dos Prazeres ficou chateado e foi
reivindicar sua parceria na música. Sinhô, meio desconcertado,
desculpou-se com aquela célebre frase no mundo do samba: “Samba
é como passarinho, a gente pega no ar”. Heitor, então,
fez um samba de alerta aos companheiros, Olha ele, cuidado, obtendo como
resposta o samba Segura o boi. Sinhô, na época, era chamado
"Rei do Samba", o que levou Heitor a compor a música
Rei dos meus sambas. Sinhô tentou inutilmente impedir que o samba
fosse gravado e distribuído. Embora tivesse vencido a questão,
e com isso o reconhecimento público pela autoria, Heitor não
conseguiu a indenização prometida por Sinhô.
Em 1931, casou-se com Dona Glória, com quem viveu até 1936,
nascendo como fruto desta união três filhas: Ivete, Iriete
e Ionete Maria.
A prefeitura do Distrito Federal, em 1943, promoveu o Primeiro Concurso
Oficial de Música para o Carnaval, do qual Heitor dos Prazeres
foi vencedor com o samba Mulher de malandro, interpretado por Francisco
Alves. Nessa época Heitor já trabalhava nas primeiras emissoras
de rádio do Rio de Janeiro, fazendo apresentações
com seu cavaquinho, acompanhado de vozes femininas, ritmistas e passistas,
grupo este que se denominava Heitor dos Prazeres e Sua Gente.
Em 1933, compôs a célebre Canção do jornaleiro,
na qual descrevia a vida dos meninos que andavam pelas ruas da cidade
vendendo jornais, numa lembrança de sua infância. A música
deu origem à campanha em prol da construção da Casa
do Pequeno Jornaleiro.
Com a morte da esposa em 1936, da paixão e tristeza de Heitor dos
Prazeres surgiu uma nova maneira de se expressar artisticamente. O compositor
descobriu o pintor ao ilustrar, através de um desenho colorido,
sua mais nova criação musical: O pierrot apaixonado. Nessa
ocasião o artista morava num quarto na Praça Tiradentes,
que era freqüentado por pessoas atraídas pela fama de Heitor
no meio dos bambas e pelo conhecimento que tinha dos lugares onde aconteciam
as reuniões mais importantes da cultura afro-brasileira: candomblés,
umbandas, jongadas, capoeiras e rodas de sambas, entre outras. Entre tais
freqüentadores, na maioria universitários, lá estava
um estudante de medicina que se lançava como grande boêmio
e sensível compositor de sucesso no mundo fonográfico: Noel
Rosa, que fora procurar o amigo bom de briga, famoso também por
sua habilidade no jogo da capoeira nas imediações, onde
um marinheiro grande e forte queria tomar a sua namorada. E Heitor então
foi lá resolver o problema do companheiro. Chegando ao bar onde
já era conhecida sua fama de capoeirista dos bons, o tal marinheiro
percebeu que tinha embarcado em uma canoa furada, e foi se desculpando
com o bamba, que o mandou ancorar em outra praia, para felicidade do casal.
Ao voltarem contentes, Heitor foi cantarolando a marcha que estava compondo,
tendo despertado a curiosidade de Noel, que disse ter gostado muito da
letra, em cuja segunda parte havia uma frase que ele considerava muito
forte e triste: "Depois de tanta desgraça, ele pegou na taça
e começou a rir". Noel sugeriu que ele modificasse aquela
parte da letra, e escreveu: “Levando este grande chute foi tomar
vermute com amendoim”, entrando assim na parceria de uma das músicas
de maior sucesso de Heitor. Na mesma noite chegaram outros estudantes
à procura do mestre, entre eles Carlos Drummond de Andrade, que
levava nas mãos um poema dedicado ao amigo para que fosse transformado
em música. O compositor não conseguiu musicá-lo,
porém mais tarde o pintor se inspiraria a criar um quadro com o
nome do poema que Drummond lhe dedicara: O Homem e seu Carnaval (1934).
Este ilustre estudante e um outro – não menos ilustre –
estudante de jornalismo, além de desenhista, Carlos Cavalcante,
foram, juntamente com o pintor Augusto Rodrigues, os incentivadores e
lançadores do artista plástico Heitor dos Prazeres. Artista
plástico porque sua plasticidade não se resumia ao desenho
de figuras e às cores de sua pintura, abrangendo também
a criação e confecção de instrumentos musicais
de percussão, chegando até a costura – nos modelos
de seus ternos, nas roupas de seu grupo de shows –, o mobiliário
e a tapeçaria decorativa.
Em 1937 começou a se projetar como pintor, participando de exposições,
sempre incentivado pelos amigos. Começava assim a dupla atividade
de sambista e pintor.
No ano de 1939, participa em São Paulo, nas rádios Cruzeiro
do Sul e Cosmo, do “Carnaval do Povo”, com mais de 100 artistas,
entre os quais Paulo da Portela, Cartola, Carmem Costa, Dalva de Oliveira,
Araci de Almeida, Francisco Alves, Carlos Galhardo, Bide, Marçal,
Henricão, Herivelto Martins e Nilo Chagas (dupla Branco e Preto,
mais tarde Trio de Ouro com Dalva de Oliveira) e muitos outros sambistas
e cantores, que foram recebidos pelo então locutor e baliza Adoniran
Barbosa, o anfitrião daquele grande evento de cultura brasileira,
realizado em praça pública, marcando a entrada do samba
na terra da garoa. Dali a excursão se estendeu a Buenos Aires e
Montevidéu.
Devido ao sucesso de tais espetáculos, esse tipo de música
começou a ser requisitado pelos grandes salões. E ao voltar
das excursões o elenco foi contratado por cassinos, teatros, rádios
etc.
No final da década de 30, além de trabalhar em emissora
de rádio, Heitor fazia parte do elenco do Cassino da Urca, onde
tocava, cantava e dançava em companhia de Grande Otelo e Josephine
Backer, daí vindo a conhecer o cineasta Orson Welles, que o contratou
como arregimentador de figurantes para um filme sobre a cultura afro-brasileira,
mais precisamente o samba e o carnaval.
Novo casamento acontece nessa época, Heitor e Nativa Paiva, uma
de suas pastoras, que lhe deu dois filhos: Idrolete e Heitorzinho dos
Prazeres, um menino tão esperado que o inspirou na composição
da música A coisa melhorou, onde, em versos, dizia: "É
mais um guerreiro, é mais um carioca, é mais um brasileiro".
A música foi gravada numa das primeiras produções
independentes, lançando a cantora Carmem Costa em sua carreira
solo como intérprete (no começo da década de 30,
Heitor já havia produzido um disco independente para o carnaval
com as músicas Gata borralheira e Me forçou a dormir cedo,
com um detalhe curioso: o disco matriz era colocado na eletrola de trás
pra frente).
Dos Prazeres – talvez por influência do sobrenome –,
além do prazer pela arte da música, da dança e da
pintura, cultivava o grande prazer de estar sempre rodeado de belas mulheres,
tratadas carinhosamente de “minhas cabrochas”, geralmente
mais de dez moças que ele treinava para dançar e cantar
com seus músicos e ritmistas e que o acompanhavam em suas excursões.
Numa dessas apresentações em São Paulo, onde Heitor
fazia muito sucesso nos programas de rádio, em teatros, circos
e festas populares de rua, conheceu uma bela jovem, com nome de flor,
que lhe deu a filha Dirce e o inspirou na marcha-rancho Linda Rosa,. Seus
amores eram suas musas, como nas músicas Deixa a malandragem, Gosto
que me enrosco e Mulher de malandro, inspiradas em tia Carlinda, com quem
teve um romance nos idos de 1927 e tiveram uma filha – Laura, a
mais velha.
Outro destaque em sua obra musical foi o samba Lá em Mangueira,
de 1943, com parceria de Herivelto Martins, gravado originalmente pela
dupla Branco e Preto e Dalva de Oliveira. No mesmo ano, Heitor dos Prazeres
passa a integrar o elenco da rádio Nacional do Rio de Janeiro e
a participar de exposições de pinturas pelo Brasil e o exterior.
Uma delas foi a exposição da RAF em benefício das
vítimas da 2.a.guerra, na qual apresentou sua tela Festa de São
João, indicada pelo amigo e admirador Augusto Rodrigues, também
participante da coletiva, que reunia artistas de vários países.
O quadro do mestre Heitor foi adquirido pela então princesa Elizabeth,
em Londres. Com isso a fama do pintor cresce e no mesmo ano é convidado
a expor individualmente no diretório acadêmico da Escola
de Belas Artes, em Belo Horizonte.
“A PRIMEIRA BIENAL DE ARTE MODERNA”, em São Paulo.
Incentivado novamente pelo amigo, jornalista e crítico de artes
Carlos Cavalcante a participar desse evento de arte de repercussão
internacional, que reuniu, em 1951, artistas de várias expressões
do Brasil e do mundo, proporcionando uma grande alegria na sua carreira
com a contemplação do terceiro prêmio para artistas
nacionais através do quadro intitulado Moenda, que até hoje
faz parte do acervo do museu. |
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